Entrevista com Thiago Luiz de Araújo, diretor escolar da rede municipal de São Caetano do Sul

Thiago Luiz de Araújo é Mestre em Educação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (2024), graduado em Letras (Português/Inglês) pelo Centro Universitário Fundação Santo André (2008) e em Pedagogia pela Universidade Nove de Julho (2014). Possui especialização em Estudos Linguísticos e Literários pela Fundação Santo André (2011).
Atualmente é diretor da EMEF Senador Flaquer, em São Caetano do Sul (SP), membro do Conselho de Segurança Municipal (COSEM) e do Conselho Municipal de Educação. Participou da Comissão de Análise do Plano Municipal de Educação (2020–2021) e possui ampla experiência na educação pública municipal, tendo atuado como professor de Língua Portuguesa, Assistente de Orientação Educacional, Orientador Educacional e gestor escolar.
Professor concursado da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul desde 2010, recebeu em 2019 a Medalha dos Autonomistas em reconhecimento à sua contribuição para a educação do município.
Após uma conversa com o diretor da EMEF Senador Flaquer, torna-se pertinente refletir sobre os desafios contemporâneos da gestão escolar democrática e sobre o papel da participação estudantil na construção de ambientes educativos mais seguros, colaborativos e humanizados. Sua experiência com as Assembleias de Classe, desenvolvida inicialmente como pesquisa de mestrado e posteriormente incorporada ao cotidiano escolar, oferece importantes contribuições para o debate sobre liderança educacional, convivência escolar e formação cidadã.
Como surgiu seu interesse pelas Assembleias de Classe e pela gestão democrática?
Meu primeiro contato com as Assembleias de Classe aconteceu em 2010, quando ingressei na rede municipal de São Caetano do Sul. Na época, conheci experiências que utilizavam esse instrumento como forma de promover a participação dos estudantes e melhorar a convivência escolar. Desenvolvi a proposta com minhas turmas e percebi seu potencial educativo. Posteriormente, durante o mestrado, identifiquei que muitos dos conflitos vivenciados na escola estavam relacionados às dificuldades de convivência e comunicação entre os alunos. Foi então que decidi aprofundar essa experiência por meio de uma pesquisa-intervenção envolvendo todas as turmas dos anos iniciais da escola.
Em que consistem as Assembleias de Classe?
As Assembleias de Classe são momentos sistemáticos de diálogo em que os estudantes podem expressar críticas, sugestões e elogios relacionados à vida escolar. Os problemas do cotidiano são discutidos coletivamente, sempre sem exposição individual. O foco não está nas pessoas, mas nas situações que precisam ser compreendidas e resolvidas pelo grupo. A proposta busca desenvolver a escuta, a empatia, a argumentação e a corresponsabilidade dos estudantes pelas decisões e pelo ambiente escolar.
Quais foram os principais resultados observados?
Observamos melhorias significativas na comunicação entre os estudantes, redução de conflitos e fortalecimento do sentimento de pertencimento à escola. As assembleias criaram um espaço seguro para que os alunos pudessem manifestar suas percepções e participar ativamente da construção de soluções para os desafios do cotidiano. Também percebemos que muitos problemas passaram a ser identificados e resolvidos antes que se transformassem em situações mais complexas.
Poderia compartilhar alguns exemplos concretos?
Há muitos exemplos interessantes. Em uma assembleia, os alunos relataram dificuldades relacionadas às janelas de uma sala de aula, que já não fechavam adequadamente. Eles próprios sugeriram caminhos para a solução do problema e elaboraram uma carta solicitando providências. A partir desse movimento, conseguimos resolver a situação com apoio da comunidade. Outro caso envolveu os banheiros dos estudantes. Os alunos apontaram questões que passavam despercebidas pelos adultos, justamente porque eram eles os principais usuários daquele espaço. A escuta permitiu identificar o problema e promover melhorias.
Essas experiências mostram que a participação estudantil não é apenas um princípio democrático, mas também uma estratégia eficaz para qualificar a gestão escolar.
Sua escola atende uma comunidade bastante diversa socialmente. Como isso impacta o trabalho da gestão?
Embora São Caetano do Sul apresente excelentes indicadores sociais e educacionais, nossa escola está inserida em um território bastante heterogêneo. Convivemos diariamente com estudantes provenientes de diferentes contextos socioeconômicos, o que exige uma gestão sensível às diversas realidades presentes na comunidade. Além disso, as famílias participam intensamente da vida escolar e possuem expectativas elevadas em relação ao trabalho desenvolvido pela escola. Isso exige diálogo permanente, transparência e construção de relações de confiança.
Qual é o papel da escola na formação para a convivência?
Acredito que a escola contemporânea não pode limitar sua atuação à transmissão de conteúdos curriculares.
Vivemos em uma sociedade marcada por conflitos, intolerância, polarização e dificuldades crescentes nas relações interpessoais. Nesse contexto, trabalhar a convivência, o respeito, a empatia e o diálogo torna-se uma necessidade educativa fundamental. Se queremos formar cidadãos capazes de viver democraticamente, precisamos criar oportunidades para que experimentem a democracia no cotidiano escolar.
Como você relaciona essa experiência com a gestão democrática?
A gestão democrática só ganha sentido quando as pessoas participam efetivamente das decisões que afetam sua vida. As Assembleias de Classe permitem que os estudantes exerçam sua voz, compreendam diferentes perspectivas e participem da construção de soluções coletivas. Mais do que resolver problemas imediatos, elas ensinam práticas democráticas e fortalecem a formação cidadã desde os primeiros anos de escolarização.
Que mensagem você deixaria para outros gestores escolares?
Acredito que o principal desafio da gestão é transformar princípios e teorias em práticas concretas. Nenhuma escola se transforma sozinha. É necessário ouvir estudantes, professores, famílias e funcionários, compreendendo que a gestão é um processo coletivo. Quando a escola cria espaços genuínos de participação, ela fortalece vínculos, amplia a confiança da comunidade e contribui efetivamente para a formação de uma sociedade mais democrática e humana.
Acredito que o principal desafio da gestão é transformar princípios e teorias em práticas concretas. Nenhuma escola se transforma sozinha. É necessário ouvir estudantes, professores, famílias e funcionários, compreendendo que a gestão é um processo coletivo. Quando a escola cria espaços genuínos de participação, ela fortalece vínculos, amplia a confiança da comunidade e contribui efetivamente para a formação de uma sociedade mais democrática e humana.
Nonato Assis de Miranda
Universidade Municipal de São Caetano do Sul



